Amamos a Deus, mas não há amor sem DOR - a Fé face à morte de alguém querido e o exemplo de S.Pedro

1. A dor faz parte do AMOR! E só é católico quem AMA. Necessariamente, não há Salvação sem dor. Assim foi a dor de Cristo. Somos mais que Ele?
A dor é uma inevitabilidade para quem ama. Apenas num idílico Jardim do Éden, metáfora do lugar onde habitariam Adão e Eva, livres de pecado e com plena imortalidade, estava o sofrimento ausente. Mas a metáfora do Paraíso é exactamente essa: os homens sempre foram homens, e nesta terra, vivem entre a tentação do Príncipe das Trevas e a aptidão da sua alma para Deus. A tentação existe, e enquanto um homem ceder, outro há-de sofrer, porque o que mente, engana alguém; o que mata, causa sofrimento; o invejoso conspira e sofre, e é propenso à ira por não ter o que quer; o devasso, compromete qualquer esperança de fidelidade e atraiçoa aquela ou aquele a quem o deve; o ébrio arruina-se e causa a dor de quem o ama. Basta um homem ceder à tentação para causar a dor e o sofrimento nos outros, e nesta passagem terrena, todos cedemos em algum momento, e por isso todos causamos dor, e todos experimentamos a dor. A inevitabilidade dessa angustiante condição é sumariada no próprio Deus Filho que se fez homem, para ser nosso próximo e nos vir Salvar, e nós coroamo-lo com uma coroa de espinhos, chicoteamos-lhe as costas, demos-lhe a mais pesada das cruzes, obrigamo-lo a arrastá-la até ao calvário, cravamo-lo com pregos nas mãos e nos pés ao madeiro, e deixamo-lo morrer. Ele, que era Deus, e como tal, consubstancial em Amor ao Pai e ao Espírito Santo.
Nenhum católico duvida da dor física insuportável que foi causada a Jesus Cristo, e contudo, tendemos todos a fugir à mínima dor que tenhamos. Acaso somos santos? Ou beneficiamos também da salvação que a morte Cristo nos veio propiciar? Quem se considerar Santo, que diga e se furte à dor. Mas para os demais, quem nos confere o direito de nos queixarmos de um pequena contrariedade ou de um dor de cabeça, quando quotidianamente pregamos Cristo ao madeiro?

A dor não é uma vontade masoquista. Se formos bem egoistas conseguimos evitá-la. Mas se cairmos na ideia de ter alguma amor a alguém, é garantido que teremos dor. Se formos católicos teremos consciência do que Cristo sofreu por nós, e isso por si deve-nos causar a maior das dores. Deve-nos dar um infantil ímpeto de correr como crianças para segurarmos nós na cruz. Mas já crescidinhos, temos que compreender, que o melhor que podemos fazer é glorificar a Cruz. Tornando-nos continuamente melhores, e quando caímos, voltamos a levantar-nos como Cristo na Via Sacra. A nossa obrigação, se reclamamos amar Cristo, é dar-nos inteiramente ao seu amor, e assim justificar que ele tenha sofrido para nos salvar. Se o seu sofrimento foi inútil pois continuamos fariseus, ai de nós no dia do juízo!

Deus Filho e Maria Santíssima são exemplos plenos de como o AMOR Dói. Mas podemos ir a homens comuns.
2. A dilacerante dor de S.Pedro, pelo infinito amor a Cristo que acabara de negar três vezes
Ao amantíssimo apóstolo S.Pedro, modelo de todas as dúvidas e fraquezas humanas, e modelo de um amor enorme a Jesus, que por vezes não sabia como traduzir.
S.Pedro comove-me sempre. O homem que ao 3º cantar do galo se lembrou que tinha negado Cristo por 3 vezes, tal como o Senhor antecipara, e nesse momento, nos pátios da casa do príncipe dos sacerdotes, ele caiu em si e sentiu a maior das dores, porque Cristo, preso, olhou para trás e fitou-o nos olhos. O Evangelho é claro "Saiu para fora e chorou amargamente!" (Lc, 22, 62).
Ele que fora feito pedra basilar da Igreja, ele que jurara defender a vida do Senhor, ele que garantira que jamais o repudiria, tinha sido advertido por Jesus que o negaria 3 vezes. Não acreditou, e quando o seu olhar desesperado se cruzou com a tristeza do olhar de Jesus, alguém consegue supor a infinita mágoa e dor, o infinito desprezo que Pedro terá sentido pela sua miserável condição humana. Terá Pedro percebido na sua fuga em lágrimas o quão miserável é a o terreno, o humano, a carne? O seu proclamado e sem dúvida sincero amor a Cristo, não o impediu de o renegar tal como previsto. E o cruzamento do olhar, porventura o último em vida de Jesus, dilacerou Pedro à sua miséria!
3. E a Nós, dói negar Cristo 30000 vezes?? Não o amamos??
Pedro era Santo, e escolhido por Cristo! E nós, que nada disso somos, quantas vezes negamos o Senhor, por palavras, actos e omissões? Ao virar as costas a quem me pede ajuda, faço o quê a Cristo? Nego-o! Ao desdenhar de quem eu acho que me é inferior faço o quê a Cristo? Nego-o! Ao irar-me, gritar, zangar-me, mentir, ou qualquer outro dislate verbal faço o quê a Cristo? Nego-o!
Mas vamos mais longe, ao escondermos o nosso catolicismo, ao evitarmos falar de Deus, ao procurarmos não introduzir Deus como tema de conversa com alguém que está longe da Igreja, fazemos o quê a Cristo? Negamo-lo!
Dir-se-á: mas estamos apenas a fazer o mesmo que Pedro! Pois, mas e tudo o resto que ele fez, até ser crucificado com uma cruz de cabeça para baixo, porque se achou indigno de morrer como Jesus? E saimos a chorar quando não falamos em Deus? Não comparemos o incomparável. Enorme foi a dor de Pedro, no último olhar que trocou com Jesus, mas nós NEM DAMOS Conta que o negamos!

Pedro amava Jesus, e daí veio dor. Maria amava o Filho, e viu a alma cortada por uma espada de dor. Jesus amava os homens, e foi sujeito à morte mais dolorosa. E a lista podia continuar: em S.João que não se afastou da cruz do meste em sofrimento profundo, porque o amava. Em Maria Madalena, grata e convertida pelos sete demónios que dela foram expulsos! Em S.Paulo, que se converteu a Cristo na estrada de Damasco, e se fez apóstolo, e veio a morrer decapitado! Em S. Tiago Maior, que veio a morrer decapitado. Em Santo Estevão que veio a ser apedrejado. Em Marta, Lázaro e Maria, da Betânia, que para fugir aos Judeus, só pararão no Sul De França.
Ser católico é amar a Jesus, e nisso amar o próximo numa entrega total. Mas esse amor a Jesus, inevitavelmente causa dor, como qualquer amor.
4. A Fé dá resignação face à dor.
A atitude do católico face à dor não é contudo de revolta. Jesus aceitou o cálice do Pai. Maria disse FIAT. Pedro não fugiu ao crucifixo invertido. S. Paulo deu a cabeça ao machado, tal como S. Tiago. Nenhum deles negou Jesus. E nenhum praguejou contra o seu destino. Todos se entregaram resigndamanete à vontade do Pai, porque o católico diz "Seja feita a vossa vontade", tal como Jesus nos ensinou.
E porque diz isso? Porque só é católico quem acredita que esta vida é efémera, de nada vale, e por isso não está agarrado a ela. Como disse Jesus ao ladrão convertido: Ainda hoje estarás comigo no Reino dos Céus!
A Fé torna a dor mínima. Sabemos que a eternidade em Deus nos espera. Aguardamos isso. Queremos isso. Amamos isso. Então, não temos medo da morte, assim estejamos purificados (vigiando constantemente, na oração, nos sacramentos e nos gestos).
Dor? Concluo voltando a S.Pedro! Amado apóstolo, que a todos nos seduz. Vacila na Fé e quase se afoga, mas ao mesmo tempo confessa: "Tu és o Filho de Deus!" Deslumbra-se na visão de Moisés e Elias e no resplandecente Jesus que lhe mostra o reino na Parusia do Monte Tabor. E balbucia que armará 3 tendas, porque está convencido que ali já está no Reino dos Céus, mas ainda lhe faltava a dolorosa descida de Cristo a Jerusalém pela Páscoa.
5. A dor da perda pela morte de alguém: De novo o exemplo de S.Pedro e a resposta de Jesus: pensar nas coisas de Deus, e não na carne e no sangue
O mesmo Pedro que ao compreender que Jesus vem de Deus quando puxa as redes cheia de peixes, se atira aos seus pés e lhe suplica: afasta-te de mim que sou miserável pecador. E Jesus disse-lhe para o seguir! E fê-lo apóstolo.
Pois foi esse Pedro também que teve a mais humana das reacções quando após confessar que Jesus era o Filho de Deus, o ouviu relatar que seria morto em Jerusalém. E no seu amor ao Mestre, sai-lhe ao caminho e diz que isso não pode ser. Jesus responde-lhe: Afasta-te de mim, Satanás, pois pensas com a carne e o sangue e não com o Espírito!

Pedro reagiu como qualquer um de nós perante a perspectiva da morte de um ente querido. Quis fazer tudo para a impedir. Porque só conhecia esta vida, e não imaginava que o seu amado Mestre a perdesse. Mas esta vida terrena, é a destes corpos de carne e sangue. E muito embora o seu gesto partisse de amor, Ele não tinha compreendido ainda que o sentido da Ressurreição. A necessidade de Cristo morrer para o seu sangue de cordeiro lavar os nossos pecados, e de Ressuscitar novo Adão.
Quantos de nós perante a morte de alguém querido, não reagimos como Pedro, tentanto tudo para a evitar? Quantos, se algum, pensa de imediato, que o ente se foi unir à glória eterna da profusão de amor contínuo que é o Reino de Deus, sentar-se à mesa do Banquete Celestial?
É normal. Tal como Pedro, somos humanos, e imperfeitos. E muito mais imperfeitos que ele. E se ele quis impedir a morte do mestre, nós naturalmente sofremos com as perdas deste mundo. Mas tenhamos presente, nessas horas de amarga dor terrena a Palavra de Cristo: "Não tens a sabedoria das coisas de Deus mas da Carne e do Sangue".
Pois tudo o que é terreno: dores, matéria, paixões - passa! E assim também a nossa vida tem de passar. Se a vida eterna fosse nesta terra, ninguém a quereria!! Aceitemos, pois, com a resignação dos Santos, que a passagem é para um sítio muito melhor. Onde o amor Reina. E para temos acesso a esse local, há que nos convertermos continuamente!
Aceitemos pois a dor, nesse milagre do cristianismo de que falava S. Jose Maria: ao transformá-la em santidade, derrotamos a principal arma do Maligno!
Fonte: Facebook